segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Um rio passou dentro de mim ( Ode a Fernando e Milton )

Gostaria de lhe pedir a frase certa. A que contenha toda a ilusao que me dispa, e me coloque em frente a todas as vissicitudes.
E madrugada, e anseio.  Penso na generosidade, na partilha, e nos sonhos nao perpetuados..  Vivo o mundo dos homens, que submerge, a cada momento, a presenca da morte. Somos faliveis, cristaos, ortodoxos, ou judeus.  Temos uma devocao mistica que nos ajuda e ampara no elaborar do que seja a nossa consciencia.  Mas conhecemos a fragilidade do que ai esta.
Vamos falar de sonhos.  Ontem, pela primeira vez, me sentei ao terraco e vi a Lua, cumplice.  E foi ela, marcando o meu tempo e espaco, se deslocando.  E, em referencia a ela, meu momento se fez sentido.
Fernando Pessoa diria :" Mas que sei eu das casas, do rio que corre pela minha aldeia.  Ele apenas esta la, e e o rio que corre pela minha aldeia ".  Foi o que senti tambem: a Lua sobe, e eu fui parte de um pequeno momento do fulgor dela em frente a meus olhos.
Quanto nao saberei porque meus sentidos estao torpes ?  Porque meus momentos nao sao de contemplacao ?  Porque exijo respostas a perguntas que so deveriam existir para si mesmas.
Penso que sou um ser social, e devo gratidao e generosidade a meus semelhantes.  Se eles houveram sido a Lua, estaria eu a contempla-los ?  Sao eles realmente a fonte de identificacao com o meio em que vivo, com a minha duvida existencial do que seja o rio que corre dentro de mim?
Fernando Pessoa segue, mais arrojado e, nessa ode de mais de trinta estrofes, acaba por dizer que passa e fica como o Universo.  Eu tambem passarei por ele.  Serei tudo e nada, a sombra de meus semelhantes.  Acreditarei na dor universal e nas tentativas de minimiza-la. Pensarei antes que sou um ser unico e que, aquele homem, a frente da tabacaria, que pensava eu estar chorando por ser empatico com seu sofrimento, nada mais era do que o apenas eu , sem encontro ao que me rodeia.
E outro heteronimo de Pessoa completaria o teorema, com o " fingir que e dor a dor que deveras sentes ".
Sou tambem esse espectro multifacetado, que sabe o sofrer, mas o renega. Que o sabe, e tambem nao lhe mente.
Se sou o rio, tambem posso correr por ele , nesse rio que so esta, e nao faz mais do que ser esse seu significado.  Como la esteve a Lua, apesar dos meus sentidos, que insistem em lhe buscar um nome.
Se sou parte da Natureza, sou a Lua.  Do qual me olvido conscientemente, mas que bate dentro de mim. Passo e fico, como o Universo.  E essa grandiosidade do ser e inerente a especie.
Podemos ser absolutamente tudo. Somos, em comunhao.  Ou optamos por renega-la.
Dai se fazem as guerras ?  Por uma quantidade inabalavel de seres que nao sao parte de, mas acreditam serem unicos em sua tirania ?
O que e ela ? E o medo da morte personificado na onipotencia desmedida ?  Pois se a Lua se faz aos olhos de todos, como o rio, eu me faco a meus olhos. E, se o que me cerca me convida ao Universo, porque rechaca-lo com balas de canhao ?
A guerra sempre existiu dentro da evolucao da especie humana.  Vem travestida de nomes e sentidos, sendo , invariavelmente, destrutiva.  Nos conceitos pre-socraticos, a questao da liberdade ja ocupava seu espaco dialetico.
E o homem habita esse planeta ha milhoes de anos, cultivando, invariavelmente, o sabor pela arte e pelo guerrear.  Como num novelo, a historia da humanidade se encobre em perdas e musica ao longe. O simples mirar da Lua.  A vida que corre, e um leito de rio.
Um rio que passava pela minha aldeia, belo simplesmente por existir.  Porque precisamos de mais ?