sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Tributo a Ana ( Efemera vida )

Ela se foi.  Como uma rosa, voce e linda.
Uma rosa arrancada a forca pelo foice da morte, realidade inconcebivel.
Quero falar de voce.  Da sua coragem e obstinacao, busca pela sinceridade e humor.
Andando pelos canteiros, se deparou com um espinho, que a feriu.  Tentou expurga-lo, mas ele se lhe fez tao sordido, a jorrar por suas entranhas.  Tornou-se absoluto, dono do seu ser.  E a levou para as nuvens, onde deva estar agora.
A morte e um murmurio, doce subterfugio do acalento. Chega voraz, e nos domina o espirito, invade nosso corpo, e finda nossa ternura.
Incognita a espreita, de onde nao se sabe o que vira.
Choro, mas de que adiantara meu pranto ? Minha presenca e linhas nao a devolverao, seu sorriso a vida nao retornara, e todos estaremos inertes.
Voce se foi, Ana, e nos continuamos aqui.
Insistindo em dar ao tempo um valor por nos estipulado, quando ele nos subjuga e faz seus escravos.  Brinca com nossas certezas e, nem ao menos, acaricia nossos sonhos de futuro.
Tempo rei, magnanimo, a negacao dos projetos de vida calculados, certezas incertas estipuladas, e da  arrogancia de quem nao se sabe finito.
Tempo rei, que me concede a cada minuto a felicidade de aqui estar, com minhas sombras de duvidas e receios, meu pesar pelos que se vao, e pelos que, em aqui estando, se sintam invulneraveis.
Tempo que o quero para mim, a conquistar mais rosas pelo meu caminho.  Que nao se apague, frutifique, e me de a chance de olhar o belo, e sentir a ternura.
Ana se foi.  Onde estara agora, sua alma e espirito?   Por onde vagara nossa linda Ana, arrancada a nosso lado tao precocemente.  Foi-se.  Flor, coragem, determinacao.
 Lembranca, saudade, carinho.  Vontade de um abraco, ao menos em palavras, soubera eu como lhe alcancar.
Sussurro, peco sua presenca e ser tao irradiados por uma forca, que nada podera ofuscar.
Ana esta comigo, e com todos nos.  Que cantaremos " Voce e linda ", mais do que nunca.   Que acreditaremos na brevidade das emocoes, e no destino fortuito dos encontros.  Na forca que temos em recuperar instantes perdidos, e chorar pelos que nao aconteceram.
Ana, viva em mim, em nos, que temos a chance de continuar o caminho dos vivos, preocupados, muitas vezes, com a efemeridade de nossas atitudes, e descompromissados para com o presente.
Sorria em cada um de nos, e ajude a vermos a esperanca de que nao estamos sos, nesse projeto gigantesco que chamamos o viver.
Inunde-nos de paz, para que possamos reconhecer, em nossas acoes, a dedicacao para o bom e belo.
E, finalmente, nos sorria, onde estiver.  Leve com voce nosso pranto por sua perda, tao irreparavel, pela luz de seus olhos, que nao brilharao mais conosco.
Ana, em voce se indo, tambem me vou.  Ao lugar onde nao verei rosas, nem tormentos.  Onde a luz seja meu unico caminho, e o todo seja feito so de ilusoes. Deixe-me acariciar seu pranto de despedida, voce, que nao nos deveria ter deixado.
Adeus, Ana.  Leve com voce a rosa que ja se foi.  Desperta, viva e calida, como so uma flor em botao o pode ser.
Havera um dia em que nos encontraremos, e pode ser que a espera seja infinita.  Por tudo, deixe-me dizer o quanto lhe amo e lamento sua perda.
Adeus, ou ate breve.  Leve com voce todas as rosas que seus olhos possam ver.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Um tributo a vida ( Vida, vida, que mais te quero ainda )

Varias vezes me pergunto se valha a pena viver uma paixao.
Ela cega, desacelera e traz o mundo a tona.  O mesmo em que os corpos se entregam, o carinho se esprai, e o sentimento tem um so nome.
Atravesse-me, deixe-me sentir seu corpo dentro de mim. Preciso de voce para me sentir viva, da certeza de um encontro, ainda que breve.
A paixao e uma furia que nao conhece limites, dona de si mesma.  Tomou-me e, com ela, viajei para subterraneos do meu prazer, e desejo incontrolado.  Depois se transformou num almejar suave por caricias e busca de intimidade doce, sussuros, beijos e caricias, nos quais me deixei levar, porque foi meu unico sentido de viver.
Finito lo tormento e o nome desse capitulo, em que quanto mais desejei, mais me senti so.  Onde tanto procurei o transcender de mim, encontrei datas e horarios, simbolos da covardia da nao reciprocidade.
Mas eu existo, e assim me sinto.  Dona do meu querer, lagrimas, e destino.
Uma paixao o e, frenesi do encantamento, e a vontade do seu querer ficar.  E alimentada por sonhos de fantasia, de um real que e a felicidade transcendente aos momentos. E atemporal, e se nutre de sentidos que nao vivem a espreita do dia.
Talvez eu goste de me enganar.  Sejam esses pequenos momentos a grande inspiracao que me conduza a mais uma bonita cronica.  Que, dentro de mim, eu conheca a finitude de tudo que, obstinadamente, tento colocar em tempo e espaco.
Minhas palavras nao seriam unicas, se eu nao soubesse sonhar. Se nao houvera, em mim, essa docura do me doar sem limites, desacorrentando meus medos e frustracoes.
E, do que mais sofri e o farei, sairei mais forte, tao mais digna de mim mesma.
A paixao da as sequelas uma dimensao finita, e acaricia o presente.  Brinca e enternece o futuro, e ama a si mesma.  Deve ficar como um legado doce, depois que a turbulencia das emocoes se acalme, e voltemos a pairar sobre um rio tranquilo, com margens solidas, e suave correnteza.
Fica a despedida, do jeito que puder ser, calida, sofrida, sem nome.  O gesto nao dado, o rosto que vai se apagar, como a luz do Sol que traz a noite.
A paixao um orvalho, numa sincope de gestos enternecidos, e de volupia consumada.  Nao se basta, mas sabe que nao e duradoura.  Odeia tanto quanto ama, conhecendo o limite que levara ao perdoar.  Agradeci e, mesmo chorando, sorri.
Continuo sorrindo a passagem de um ano, que se me trouxe tantas flores.  Desgovernou-me, em muitos atimos, ao mesmo tempo em  que me trouxe o amor, pelo reconhecimento do meu sentimento e alegria doados.
Sonhei e me vesti de Cinderela, porque, na verdade, descobri que o sou.  E que tenho um nome do qual as lembrancas, agora, me trazem carinho.
Pude fazer amigos, reencontrar minha mae, abracar meu filho, e ir a luta. E sonhar, porque tenho a fragilidade e a forca para faze-los. E sem dedicatorias, o meu tributo e so a mim mesma.
Encontro do que eu mais poderia ser, com todas as vicissitudes da vida que, como diria Clovis de Barros Filho, e extremamente competente para nos entristecer.
Ela e linda, desafios imensos, procura eterna, e compasso curto.  Nele facamos nosso tempo, cada segundo a propria vida, tambem uma frase poetica.
Porque nao ?  Poesia.  Ela esta ai, esperando ser lida, metafora apos outra.
Com certeza, a vida nao e para os fracos.  Mas, a eles, a redencao da nao procura, e o amorfo do convencionalismo.  A aqueles que se deixam guiar por um um relogio que bate contra as emocoes, saibam que ele o faz tambem a favor da morte, incognita de todos nos que nao a sabemos.
Tenho um lindo texto, para mim, e todos que me lerao.  Vivi, e nao me amedrontei. Sofri, e estou aqui, mais do que nunca, inteira.  Chorei, lagrimas que tambem me adocicam.
E pude usar o sentimento de que, das palavras, extraio.  Elas que me acompanham desde menina, e que julguei perde-las, por tantos momentos em minha vida.  Foram e o sao, incondicionalmente, fieis.  Uma alegria infinda por te-las minhas companheiras, e saber de sua lealdade.
E mais um momento, feliz ?  Nao sei.  Com certeza, livre.  Experimento muita liberdade na nudez que esbarra comigo.  Onde sou finita, em toda grandeza do meu estar.
E uma despedida de algum momento de paixao, que me tomou por inteira, escravizando, e me dando redeas para seguir em frente.
Nao agradeco ao meu objeto, mas a mim, por tanto querer e devocao.
Se terei forcas para ver outro arco iris, nao dependera so de mim.  Ou, talvez, sim. Nao sou dona do meu destino, como o posso nao ser da minha vontade.  Se meu corpo, hoje, reclama, a forca dos meus instintos e intuicao sobrepuja os meus desejos de menina.
Ja nao me despeco de 2016, mas sigo o sentido da vida, que vai continuar pelo tempo que me for concedida te-la.  Dela so tenho, em se, a autonomia das minhas decisoes, e um desejo singelo de que tenha tempo.
Ele vai continuar a correr, e eu a reverencia-lo.  Como me foi permetida a sorte de faze-lo agora.
Despeco-me com um sorriso.  Vida, vida, que mais te quero ainda.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Lee, so para voce ( Ode ao meu ventre materno )

Muita chuva e frio.  Lembro-me do dia em que meu filho nasceu.
Ha mulheres que olham seu rebento com ternura imediata.
Havia se passado alguns dias da data do parto, e acordei, numa madrugada do dia primeiro de janeiro, decidindo que aquele seria o dia.  Eu tenho um pouco dessas coisas, estabelecer o dia.  Nao, foi voce que me esperou.
E, entre a labuta de viver minhas contracoes aumentando, e meu ventre pedindo para que saisse, foi num dado momento que voce veio ao mundo.  Sem que eu tivesse a menor reacao de uma mae amorosa, que chora ludicamente. Voce me foi colocado em cima, e minha reacao foi de espanto e incredulidade, porque deixamos de ser um so. Comecamos nossa estrada, agora ja nao mais simbioticos.
Depois me lembro de que apaguei todos os vestigios de sono, e so consegui sair do quarto para lhe ver uma, dez vezes.  Voce era o bebe mais punk do bercario, com aquele cabelo espetadinho.
Foram se passando tantos anos, Lee.  Tantas dificuldades e renuncia, tantos prazeres e deleites.
Fui sua torcedora fiel nos anos de basquete a fio, ouvinte de todas as inumeras estorias que voce sempre teve para me contar.
Acompanhei seus passos mesmo nao estando presente, so em amor.
Parece que galgamos uma estrada feita de muitos percalcos, em tantas e mais horas.  Por sua causa, ja chorei lagrimas que pensei nao tivesse, e encontrei em mim a forca de um perdao, que so o ternura materna pode explicar.  Tambem descobri que daria muito de mim para aliviar sua dor, que minha e tambem .
Gostaria de lhe indicar um caminho, num pedido mudo que e inconsciente.  Todos tem seus rumos proprios, e suas derrotas e alegrias sao fruto do seu pessoal entendimento do que ai esta.
A vida e um voo, entre as alturas e a rasante, os dois cheios de desafios e perigos. O importante e que se tenha, na medida, a bussola do destino, e se saiba que sempre e benvindo o regressar.
Os momentos em que voce me surpreende sao lindos, porque vejo que os livros e a delicia da vida lhe marcaram .
Nao, nada e facil.  Para voce especialmente.  Isso engrandece sua forca, e me torna, sempre , sua cumplice.
Pois tenho por voce um amor que as palavras nunca alcancam. Forte, limpido e com humildade.  Sem medo, as agrurias ja me mostraram que nao ha desafio insuperavel.
Abra o ano, descubra e enleve.  A vida e boa, e sua idade traz o descompromisso do conhecer e saborear. O mundo dos homens e esse, Lee, que voce ja sabia na sua intuicao e critica, e no seu jeito especial de, a tudo, assistir.
Lee, oh, Lee,oh, eu amo voce....Vou cantando por 26 anos.
Cantarei por muitos mais.
Muitas flores, coloridas e singelas.
Lee, amado, querido filho.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Ah, se a juventude que essa brisa canta... ( 2016 , me despeco )

Sera que esse seria o titulo dessa cronica ?
Parece-me incrivel que eu ja tenha um titulo para palavras que nao foram engendradas.
Deve ser porque eu sei o que estou sentindo, mas nao o e diferente de outras vezes, nunca o e. Sempre soa limpido, forte e tao junto mas, ao mesmo tempo, como um conteudo inospito de palavras.
Meus sentimentos e a vontade que eu tenho de que as palavras sejam testemunha presente do momento que nao se esvaia.
A quem, nesse momento, interessa o amor ?  Quem perceba a paixao, ou viva com ela, finita, doce, deixando-a ir, ficar, se transmutar entre varios mundos.  Como se fluissem, as recordacoes sao um simples perpassar de tempo, num cheiro que ainda nao se foi.
De uns ganhei um abraco, que nos tornou unicos por alguns minutos. De outros, simplesmente recebi rosas, e nao vi mais nada.  Com alguns troquei muitos beijos, e queria outros mais.  Ate me saciar, mesmo sabendo que o tempo nao conta o prazer que, por sua vez, nao e funcao de tempo algum definido.
Mas eu gosto da ida, do desdobramento dos corpos, e ate da despedida.  Acho que nunca entendi tanto o sentido da efemeridade, num pulsar que vai cada vez mais rapido, e do qual nao sou dona.
Nem ao meu desejo pertenco, porque ele brinca comigo, se esconde, sorri, acaricia e me leva.  E , as vezes, estou la, ao final me esperando mas, em outras, so me perco de quem eu sou.
E os beijos, encontros de duas bocas, linguas e labios.  Eu tambem quero beijar.  Mas, agora, aqui, eu me relevo ao fortuito, que nao e mais do que a vontade de que nada tenha fim.
Houve um momento, hoje, em que olhei a manha, os passaros, ceu, e o que circundava me dava a paz de saber que eu aqui estava por mero acaso.  E de que eu poderia me ir, e de que tudo seria muito sereno.
Porque eu descobri que os beijos acabam, mas nao se vai a lembranca, agora que estou escutando Ana Carolina e Seu Livro do Esquecimento.  O presente e tao curto e maravilhosamento belo, que aceito que se va, porque viverei de lembrancas, como sempre fiz.
Sou uma romantica incuravel, como as flores que preservo e de que gosto de ganhar.  Passam por uma vida, breve, tenue, mas tao resplandescente e calida.  Eu gostaria de ser uma flor, e pode ser eu que tenha sido, ou que venha a ser.  Ou a Lua, alguma estrela.
Num dos melhores anos da minha vida de que me despeco, 2016, eu descobri o quanto ela e fugaz, e ate mesmo vulgar.  Que irei embora sem descobrir o misterio intimo das coisas, porque as coisas sao seu proprio misterio, Fernando sempre.
Porque os encontros sao atimos pequenos, num espaco de tempo muito maior e, mesmo assim, eles deixam seu registro doce.  De que as sequelas continuam, mas nao conseguiram matar.
De que o mundo dos homens, finito e inconcebivel, vai agendando os dias da minha morte, e a de todos.  Mas isso fica pequeno, quando se entende que a vida vale a pena pelo que e, pequena, miuda, e com todas as surpresas que se permitir nos dar pelo caminho, se estivermos dispostos a ve-las..
Vive-se com tudo, e o todo se faz parte.
Virei cronista de aeroporto, de dentro de casa, imaginar o mar, sonhar por mais, e de aceitar o belo, tao como a a tristeza.  Todas as roupas que visto, agora, nao me fazem esconder a nudez dos meus sentimentos.
E parece incrivel que e nesse ano, tao revelador, que a concepcao da minha pequenitude venha tao repleta de tudo que eu possa supor, hoje, como liberdade,
De todas as amarras, ciumes e protecao.  De todo o odio que veste a capa do cinismo com o qual as pessoas parecem alimentar suas vidas, foi a redescoberta da escrita a moto mais maravilhosa para eu ser so eu mesma.
E de todas as vezes em que tenho falado de que tive sorte, a maior e conseguir colocar em palavras o que sinto.  Eu ja sabia de que seria um reencontro muito grande comigo mesma, mas nao intui a forca que esse presente me daria.
Que 2017 me espere escrevendo mais, e com a coragem de dividir, o que tambem e novo.
E muito amor para todos os encontros que cruzarem o meu caminho.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Volta a ditadura ( Sem titulo ou palavras que caibam )

Doces lembrancas do tempo do movimento estudantil.
As palavras corriam soltas, bem como nosso desejo.  O falar era doce, e estava sempre a procura.  Rostos lindos, inebriados na vontade de procurar o outro.
Sonhei ?  Eram aqueles os tempos de ditadura, resistencia e pavor ?  Lembrancas que se mesclam as noticias de mais um companheiro exilado e, quem sabe, muitas outras estorias a serem contadas.
Eramos muitos, poucos, nao sei.  Muito embora a vida, ja de la, pulsando solta, com todos a imaginar um futuro proximo e promissor.  Parece-me que esse era o foco de nossa ambicao.  Sermos a resposta ao incognita de um escuro que nao estabelecia limites.
Aos estudantes, se juntaram operarios, a voz de um plebeu que galgaria um patamar historico, ou um intelectual que exerceria suas teses mal elaboradas no dominio do poder.
Todos sao retratos que se mesclam, numa convulsiva emocao de que se volte, absurdamente, ao momento oco que despertou a denuncia e indignacao.
A etica da sobrevivencia nao e conivente com a ambiguidade dos sentidos.  E proibido se avancar so, com medo de que um algoz se lhe tome a vida. Num murmurio, mesmo as vozes dissonantes se tornam calidas, na roda viva da insurreicao que e o motivo de muitos, saber de quase nenhuns.  Calem-se vozes e oucam o gemido dos martirizados, daqueles cujos corpos, atirados ao mar, sofreram as penurias pela sua coragem inconteste.  Voce se foi, companheiro, mas nao estou so.
Dias e mais em se procurando a resposta, por entre os passos da cavalaria que alcanca seu grito.   Odes quebradas, corpos dilacerados numa so sentenca.  So a morte vale a pena.
A vida, ainda que pulsante, e pouco se as respostas nao sao dadas.  Queremos mais, que se pare a tortura em nossos corpos e bocas caidas, ventres que murcharam por choques eletrizantes.
Alcancemos o orgasmo do delirio dos nossos sonhos, tao finitos quanto a sede de uma ditadura cancerigena.
O homem nao o e, e nem tampouco o faz sentir.  A morte pode ser breve, por isso o delirio da vida.  Somos todos, cada um sua voz, cada voz o mesmo unissono.  Nao e a lenda que nos trara a certeza, ou formula que conduzira ao imediato.
A grande questao nao e a de quem a tenha a verdade, mas se ela realmente se revele, palpavel.  Que sociedade sublimou o homem, dotando-o da capacidade de construir suas linhas por veias, que nao as de sangue?  Quando oprimidos nao houveram para justificar a sede do poder ?  Novelos de historia que se emaranham e desfazem, ao som de uma valsa de Medeia.
Um dia, no Brasil, a farda descobriu seu rumo, forca e contradicao.  Armou-se sanguinaria a destruir todas as flores de Vandre pelo caminho.  Matou Torquato e Ana Cristina, visionarios. E nos deixou, em meio a construcao do destino, atonitos pelo quadro de tamanha crueldade.
Quero gritar, mas nao posso, pois meu medo me estanca.  Quero pedir que olhemos numa direcao em que o horizonte perca seu nome.  Que sejamos humanos, sem siglas. Sem ou com dialetica, absolutamente conscientes dos nossos sentidos e orientacao na vida.
Um muro alto pode ser pichado, ter uma mensagem escrita e degustada, como pode, tao somente, ser limpo, em que o nada escrito signifique o todo de possibilidades.
Calemo-nos, porque palavras sao armas.  Ferem, atiram e matam, quando nao se respeita seu silencio.
Fernando ja nos diria que o homem da Tabacaria o imaginou chorando por empatia, o que, na verdade, nunca existiu.  Nosso rio e tao somente nosso, e nos diluimos nas aguas porosas de um vernaculo empobrecido pelo uso.
Quero silencio.  Nem Liberdade e Luta ou Refazenda.  Quero, desse momento, so os rostos lindos, nossa permissividade assumida, na procura de sermos mais livres.  Cantar, dancar, olhar a flor que, se colhida, murchara.
As palavras me levam, de onde eu so queria estar.  Vou rumando a minha paz que acena ao mundo dos homens, se fechando como uma petala que, mais do que nunca, sozinha estara.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Escolheu meu nome o destino ( Ode a liberdade )

Voce vem ao mundo e, sem que perceba, ja lhe tem adotado um nome.  Que obviamente nao escolheu, fruto das fantasias e delirios dos seus pais.
De onde surgiu a necessidade de caracterizar a prole ?  Para diferenciar um individuo do outro, provavelmente.  O grande problema e que, junto a essa urgencia pratica, surgiram tambem os desejos egoistas da escolha individual.  Sendo assim, eles se tornaram soberanos e imutaveis.
Nascemos com um nome, em que a maioria absoluta dos cidadaos ocidentais nao pensara em questionar, seja esse seu desejo ou nao.
Por uma questao de tradicao, a geracao judaica mais antiga continuava a perpetuacao nominal de parentes que haviam se ido.  Tornei-me Anabela.  Homenagem a minha avo e tia, um nome multiplicado em suas emocoes e homenagens.
Primeiramente, nao gosto de nomes longos, e muito menos adjetivados.  E claro que, aos olhos de criancas que sabem ser perfidas, me tornei oposto, sabendo eu ser ou nao bonita.  E comico e truculento se alcunhar uma menina por Anafeia, mas muito prazeroso.  Vejo cada rosto saboreando a emocao do contrafeito, principalmente em nao havendo uma resposta em revide.
Calei-me, e me lembro de que esse foi um dos derradeiros traumas de minha total existencia. Carregar um nome de mortas, que eu nao conheci, estimei, e que me trouxeram so estigma.  Mas, sozinha, frente a um exercito de alcunhadores, me curvei a minha propria impotencia.
Minha redencao ocorreu depois de quase trinta anos, quando fui morar num pais diferente em que, nem ao menos, as letras do alfabeto coincidem.  Para minha surpresa e satisfacao, encontrei menos letras no meu nome em hebraico, grande vitoria.
Mas meu verdadeiro regozigo esta no devaneio melodico que meu nome parece causar. Sou notificada de que ele soa cristalino aos ouvidos, e semblantes, quase sempre extasiados, me parabenizaram como se houvera essa sido minha escolha pessoal.  Onde moro nao ha sentido em se procurar um significado, posto que a sonoridade em tudo se atravessa ao motivo.
Vivo feliz, submersa ao desejo de me esconder de um trauma, que meu ja nao mais e.  Venci, como se tivesse empunhado armas, nao soubera eu as havia tido.  Tenho um nome lindo e, sem querer, se fez justica.
Penso comigo, e muito, no sentido das escolhas que por mim foram feitas. O absurdo de carregar uma dor que nao e minha, por tanto tempo.
Do mesmo modo que a adjetivacao prejudica a critica objetiva de fatos, pode marcar um nome por toda a vida, pregar em ferro e brasa a auto estima de uma crianca que, por fim, se tornara adulta.
Aos pais o desejo prerremptorio de se fazerem presentes em suas vontades.  A nos, descendentes, a humildade da resignacao.
Nomes deveriam tramitar, e serem sujeitos a vontade de quem os recebe, desde a mais tenra infancia.  Deveriam voar ao vento, e encontrarem seus ninhos justos.  Na verdade, muito me alegraria ser chamada por menina.  Aquela que la vai, olha, e se identifica.
E que, num dia, surpresa, mas deliciada, lhe fosse dada a graca de optar.  A qual, provalmente, pediria postergar o pedido.  Ou mais, simplesmente, como toda a crianca, rebateria com a palavra doce.
Nao seria um nome comum e, eventualmente, escolheria outro.  Que me desse prazer, recompensa e sentido.
Nem todas as Anabelas encontrarao uma segunda chance.  Para as que ficaram, a renuncia.  Ou se adaptaram as circunstancias, ou nao sofreram, como eu. Quica ainda acrescentariam mais letras, como na lingua inglesa.
Eu me livrei do destino, abrindo outra pagina em minha trajetoria.  Como se minha decisao de partir quisera ser meu aval a um verdadeiro novo comeco.  A possibilidade de viver meu nome, em liberdade, foi uma das garantias de que tomei o rumo certo.  E de que as diferentes linguas, espalhadas pelo mundo, encontraram coerencia em sua razao de ser.
Aqui estou, por decisao de uma sorte existencial, convicta de que, a cada vez que emitir os sons de Anabela, receberei um elogio em troca.  Mais importante, nao viverei o mundo da chacota que, em crianca, um dia experienciei.
A todos que, como eu, experimentaram a desilusao da nao escolha, ja em idade tao precoce.  Que temeram calados e sozinhos, minha empatia.   Meu desejo de que sejamos livres, alcunhas e silabas a nos perseguir.
Antes de tudo, seres humanos com direito a sua individualidade e decisoes.  De resto, a vida, por si so, tomara conta.                                                                                                                                  

domingo, 20 de novembro de 2016

A mulher que sou ( Desenho grego e cristao sobre as mulheres )

Foi-se.  Mesmo porque, a qualquer hora, se iria.
No formato de um coracao, os filosofos gregos se lhe atribuiriam a beleza vinda do cosmos.
Um rosto de crianca emoldurado pela fotografia singela, colocada na carteira.  Um pedido, suplica, imagem doce de um ser ainda carente de amor.  As formas atribuidas pela natureza, em conjuncao com a natureza do cosmos.
A beleza, a virtude que emana dos corpos, e confere a alguns sua superioridade. O ser humano como produto de seu alinhamento com forcas superiores, que se lhe determinam o alcance de suas virtudes.
Nao vivi em Atenas e nem, tampouco, em Esparta.  Em ambas, o belo que existe em mim nao seria valorizado, posto que, aos gregos, sublime lhes foi tao somente a imagem masculina.
Sou mulher, e assim permuto minha essencia.
Do que se diria mulheres e natureza, aonde estariamos nos no pensamento grego.  Platao desejou, e seu anseio se resumiu ao querer, sem o toque.  O desejo alimentava os sonhos, e alcancar os destruia.  Basicamente, projetos de afeto e libido nao consumados.
No mundo da Grecia Antiga, o homem, submisso a natureza, nao tinha sua propria vontade.  Alguns nasciam mais dotados de virtudes, e eram, adaptativamente, mais recompensados.  A concepcao darwiniana encontrava sementes, ja nesse periodo ancestral da historia.
Mulheres, quem somos ?  Depois dos gregos, surgira o pensamento cristao, estabelecendo a ordem entre os desiguais.  A virtude deixara de se centralizar no proprio individuo, e sera avaliada pelas acoes que, dele, reverterao para o bem comum.
Um salto gigantesco na historia, do ponto de vista do papel feminino.  O pensamento cristao se amolda ao desenho do coracao enternecido das mulheres, ao seu traco misericordioso de se devotar, e capacidade de amar incondicionalmente.
No mundo dos seres humanos, somos nos as mais aptas a doacao nao reciproca, e a entrega sem contingencias ?  Sera que nossa ausencia nas paginas dos manuscritos gregos nos leva automaticamente a piedade crista ?
Provavelmente, o primordial papel da mulher, em qualquer sociedade, seja o de trazer descendentes ao mundo, funcao essa determinadora da continuacao da especie. Nao e essa uma virtude elevada, talvez a maior entre outras tantas?  Ou talvez essa funcao seja encarada como preconcebida por aqueles que, ao ser humano, procuravam a beleza, virtude e sabedoria ?
No mundo em que a justica e o atributo de maior valor, como para Aristoteles, qual o papel da procriacao ?
Parece-me que a era crista nos fulgurou o merecimento.  Tornamo-nos castas e ferteis, para justificar a compaixao.  Hipocritas, sem denuncir a raiva, e profundamente ariscas, por esconder nosso corpo.
Cristo foi crucificado mas, antes, sua mae tambem o foi, por o ter parido virgem.  Porque a nos nao atribuido o prazer e o himen rompido ?  Porque a Jesus a candice, fruto de uma pureza desafiadora da propria vida?   Da mesma forma, nao escorre o sangue aos dedos desse ser santificado.  Mistificacao que nos obriga a forca moral de nos sabermos desprovidas de prazeres e sabores, mas reles em nossa identidade.
Gregos e a beleza, escultura de Michelangelo em um museu de Florenca.  Olhar ao cimo, corpo escultural, somos homens.  Penis pequenos, grandes musculos e cabelos encaracolados, a supremacia do belo.
E, quando a beleza feminina surgir, vira, quem sabe, coroada de todos os resquicios anteriores dessa subjugacao da mulher, da sua nao aceitacao como ser pensante, mas como reles progenitora, carente de deveres altruistas.
Hoje la esta, a letras garrafais.  Abaixo a cultura do estupro, no que eu ouviria um eco muito distante aos iconos da historia, que protagonizaram a mulher como o fizeram.  E da qual eu, tampouco, lhes retiraria a responsabilidade, muito embora sabendo que a insurreicao possa ser sinonimo de morte.
Quero ser mulher, como tambem possuir meu corpo, espirito e virtudes.  Anseio o livre arbitrio dos que o foram, e nao o mais sao. Amar promiscuamente, e me entregar sem sentidos.  Fugir da realidade, e nao voltar dos meus sonhos. Nao ser feliz, em querendo a liberdade.  E saber brigar com absolutamente todas as minhas certezas.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Morte em vida ( Ode ao indio brasileiro )

Na calada da noite, um grito ecoa por toda a floresta.
Sao as maes que nao tiveram tempo de amamentar seus filhos, e os pais que os descobrem jovens, estrangulados junto a uma arvore que nao quis morrer.
Dezenas de seres pedindo seu lugar, que outrora havia nao se fizesse nenhum clamor.  Dentro das matas sorrateiras, um indio desce, farejando sua presa.  Seus olhos de aguia a tudo assistem, e ele espera.  Seu compasso e unico, o limiar de uma vida.  Seu tempo tambem o e, longiquo e desprovido do valor das cidades.
Dormir ao chao, relento, terra firme.  Hoje a noite sera a celebracao dos fogos.  Amanha a colheita sera mais farta, e o dia mais luminoso.
Mas, aos indios, nao lhes e permitido cacar nem, tao somente, ocupar seu territorio.  Eles sao os senhores que ameacam, os verdadeiros algozes de nossa sociedade decrepita.  Elementos produtivos, gananciosos, que se ocupam em extrair do bem os maleficios que contaminarao todos os pobres de espirito.
Ja fui indio, e por isso sei de seu destino.  Vesti-me com roupas coloridas, adornei meu corpo, e gritei. Um brado unico nas selvas, escutado por todos os trovoes.  O ceu ouviu meu lamento, mas o mundo dos homens o emudeceu.
Somos carcaca, a que se pode jogar ao limbo, resquia virtual de poeira.  Somos criancas que choram como todas, pedintes no seu direito de crescer.  Mas o leite de nossas maes ja esta seco.
Um dia, andando pelas matas, eu, indio, me deparei com uma cena.  Era a estrada costeira e vozes, muitas, que pediam minha submissao.  Destruiram-nos a aldeia, o pao, e a terra.  Nossa escola se desfez como um livro, ja sem uso.  Choravamos, mais nao emitiamos nenhuma voz.
Eramos fantasmas, fantoches de nos mesmos.  De que vale o choro nao consolado ?  Por quantas mortes valera esse lamento ?
O dia se passou e, com ele, veio a noite.  Espreitou-se a esgueira, e fulgurou no ceu.  Mas tambores tambem emudecem, quando nao ha quem os toque.
Nao havia mais tristeza, alegria ou saudade.  O sentimento se extinguiu, a raiva acabou, e uma inteira raca foi dizimada.  Sem rastros, vida, ou qualquer sombra de identidade.
Os grandes senhores tomaram por bem nada dizer, fato posto. De que adianta a compaixao a quem nao sabe ser servil ? A empatia, a quem unico se julga ser ?
Genocidios acontecem mundo afora e, esse, e so mais numericamente um.  Estejamos mortos, plantados com nossas flores, sepulcro de nossos tormentos.  Nossos suicidios nao serao contados, nosso pao distribuido, e nossas raizes eclodirao, arrancadas a forca.
Nasci indio e assim me vou.  Sem qualquer traco de saudade ou esperanca. Cetico de que dias melhores me esperarao.  Confluente ao ruido dos passaros, que me fizeram parte da selva, em unissono.
Apesar de tudo, nao ser, posto que morte em vida.
Nasci indio, e assim morri, levando minhas lagrimas, mas nao meu acalento. Deixando tristeza a cada palmo pisado.
Morri indio, mas deixei o legado de nao me deixar dobrar a subserviencia do homem.  Se minha terra delimitada, sua vida um vazio de amor e ternura.
Se, ao meu filho nao leite, a voces nao a vida.

sábado, 12 de novembro de 2016

Retina ( Cronica de uma paixao desenfreada / 2012 )



Uma nova definicao da palavra louco surgiu na imprensa.
Ele e o candidato a escritor que, num momento de delirio epico, envia rascunhos de seus textos eroticos ao proximo procurando, com isso, ganhar terreno em sua simpatia e desejo.  Mas que nao se tema, insanos que o sao em negar o que fazem, ja que um pretenso auto sentido de paranoia os faz calar sua consciencia.
Maluca e aquela pessoa, mulher, inteligente, sensivel e charmosa, que decide variar seu estilo literario, e adentra pelo complexo mundo das investigacoes eroticas, imaginando-se ser uma personagem desfrutadora do prazer merecido por todos os habitantes terrenos.  Como so sabe escrever e nao o esperar, dilui-se a si mesma, em sua fantasia pseudo postergada.
Insano e o mundo dos que sonham com olhos abertos, e nao estendem a mao, normalmente por medo de que a companhia de um destino libertario os faca respirar ar puro e colorir sua visao.
Loucos sao aqueles que tem olhos e nao os usam, quando tantos, deles desprovidos, enxergam a verdade.  Aqueles que sentem falta do que construiram, que tocam um concerto sem notas, mas ainda lhe ouvem a melodia.
Feliz e o mundo do corpo exposto, da vontade desgarrada, do faz de conta do que nao e realidade, e das magoas que sucumbem a erosao do tempo.
Anormais somos eu e voce, que esperamos a vida, quando ela caminha dando voltas ao redor de nosso pescoco.  Mas, insistententemente, pesquisamo-la uma intencao e conteudo no que apenas e, para depois chorarmos o que passou, nos nutrindo de uma motivacao estoica de auto piedade.
Loucos, mil vezes loucos, por termos o prazer na mao e nao encontrarmos ecos de resposta, e chorar um prato solitario.  Por nao gritarmos, em vez de procurar o caminho de volta a nossa casta protetora.
Completamente insanos, vendo a vida passar a foice, levando nossa vitalidade e delirios.
Absurda a solidao de um grito mudo, que so encontra lugar no papel.  Onde andara minha ternura e meu pedido, se ca estou inteira, mandando rascunhos infinitos para um endereco incerto de um coracao desolado.   Perdi a razao nos meus arquetipos de uma cronica libertaria, que tomaram rumo a maos erradas, doce cumplicidade do destino.  E, como num jogo de dominos vendido, se seguiram a outro texto, a que se juntou uma nova inspiracao para, no final, resultar no vazio.
Fico eu com minha insanidade, por uma razao de posse e egoismo.  Serei eu a que fala, carrega o fardo, ama e sorri, levando uma linguagem estranha, que a si mesma desconhece.  Presenca maior em uma constelacao de mentes que anseia, mas reluta, martir, menina, vontade grande da ternura e medo do desconhecido.
Voltando a premissa basica, me pergunto se errei.  E, em o fazendo, se ha remediacao.  Como encontrar paz e inspiracao para viver a fantasia de um encontro inesperado, e segurar a paixao em minhas maos.  Como nao sentir a existencia, contando os minutos da minha pretensa, sana loucura.




           







quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Andando em circulos ( Trump e eu )

Reza a lenda de que os genes determinam a procedencia do homem.  Houve um dia em que li um livro chamado "O Gene Egoista ", onde uma tese defendia a tese de que ja viemos ao mundo com o expectativas do que vamos oferecer aos nossos descendentes.  O gene nao seria altruista, pois nao se preocupa com o aperfeicoamento da especie, mas sim da sua minuscula e elitista prole.
Mas, se juntarmos todos os genes da humanidade, preocupados em salvarem a si mesmos, o que teremos ?
Estamos, por ora,  deixando um sombrio legado de negacao de valores humanitarios, aliado a conceitos retrogados e preconceituosos.  Esperemos tao somente que as futuras geracoes lutem para se contrapor a toda essa onda de excentricidades anti eticas ?  Mas isso vai exatamente de encontro ao que o gene egoista nao quer.  Ele pede sobrevivencia, e nao aniquilamento.
Mas sera tao somente a continuidade do nao justo que permanecera ? O fomento as guerras, a nao identidade dos oprimidos e injusticados ? Serao os genes egoistas em maior numero os que farao valer a sua voz ?
Pensemos nos nossos filhos e netos, animais e toda natureza  como um tudo. Questoes como sustentabilidade se farao presentes em governos que pedem solucoes imediatistas nao ancoradoas nos desejos da maioria?  Na violencia que se perpetua, e nao pede clemencia ao atingir pessoas indefesas.
Reflitamos sobre os meios de comunicacao devassos e partidarios que permeiam conluios mundo afora, espalhando um terror subliminar, que se espelha a cada derrota enfrentada pelas camadas mais humildes, e a cada ascensao desenfreada de tiranos sem quaisquer concepcoes humanitarias.
Ja nao sei mais qual deveria ser o papel dos genes, e ate me parece inocuo questionar-lhes a veracidade e importancia.
Se egoistas, significa que ajamos de acordo com certos valores e premissas que, esperamos, se perpetuem por nossa prole afora e que, a ela, seja resguardada sua continuidade.
Se altruistas, visariam, talvez, a uma melhora da sociedade como um todo, em que a sobrevivencia fosse garantida a todos os individuos.
Provavelmente, os genes devam estar passando por um momento de crise existencial.  Ou covardes o sao por natureza.  Porque, no estagio de desenvolvimento tecnologico em que se encontra a humanidade, zombar de basicos principios de coexistencia e, no minimo, uma afronta a nosso intelecto cognitivo.   Mas ao nosso coracao, me permito questionar.  Os seres humanos nao podem ser qualificados como ponderados, hegemonicos ou, as vezes , vivos, no sentido de que alguma emocao basica os afete.  Existe alguma coisa que sempre nos escapa.  Ao fim de periodos de concretizacao de sonhos libertarios, retornamos a essencia do pobre, gasto e vil.
Circunspectos em nossos dogmas, envoltos em nossa tirania de poder, compomos um quadro do que sera a futura geracao.  Um fantoche de si mesma, em que pseudo ditadores adotarao formas populescas de divulgar suas politicas arbitrarias.  Em que os mais necessitados continuarao a habitar o reino da ignorancia, sentindo-se confortados por fazer parte dele.
Ministros apocalipticos, deuses em fantoches, tudo passara.
Escolas serao ocupadas, porque os genes egoistas lhes farao vistas grossas. Mas por simples pena e concessao.  Na verdade, o dominio do poder garante tal imunidade, que caminharemos, passo a passo, construindo a duras penas, nossas pequenas mutacoes.  Elas surgirao, porque os recursos estarao esgotados, e porque a mao que constroi a labuta se enfraquecera.
Muito tempo decorrera, para que as vozes que facam sentido voltem a falar um coro unissono.  Berrarao, com certeza, e vislumbrarao um mundo de paz onde todos os genes egoistas confluirao para os mesmos anseios em relacao a sua prole.
Mas havera seres, alguns, tristes, maquiavelicos e sordidos, que enxergarao no horizonte as tenues sombras negras de um amanhecer calculado.  E, novamente, se reproduzirao, e viverao nossos filhos , netos e afora, a contradicao do nao ser.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Cronica de aeroporto ( Se eu souber sentir saudade )

Vou-me embora para Pasargada.   Nunca pensei que fosse tao facil flutuar.  Estar aqui e la, e saborear as sensacoes de um presente nao definido.
Perdi o momento, nas badaladas do meu relogio que pulsou tao rapido, veloz, cortando as nuvens.
Fui filha, amiga, namorada e crianca.  Em todos os papeis, me mesclei e nao me senti.
Por vezes, vinha o choro, e eu atentava para a emocao do momento.  Depois os quadros se fundiam, brincavam em minha mente, e eu delirava.
Muito o fiz nessa viagem, ate quase perder o chao.  Chamei ao meu nome, e me esqueci.
Minha mae, sentada em frente a mim, readquiria consciencia e clamava sua morte proxima.  O amigo se tornou amante, e relembrou comigo os velhos tempos.
As ruas nao pararam de correr, e o frenesi tomou conta de tantos atimos, que eu nao sei se fugi. Encolhi-me na minha solidao de delirios, imagens, conversas ficticias, musicas que cantei para uma plateia que so a mim assistia.
Brinquei de boneca, vendo minhas fotografias de infancia, e minha mae, velhinha, que outrora foi uma mulher, como eu, como tantas que possam passar despercebidas a luz do horizonte.
E, finalmente, estou sentada aqui, num banco de aeroporto, escrevendo, querendo que isso nunca se acabe, e que justifique minha loucura.  Adoro as palavras que produzo, a estetica que vai brotando de um conteudo totalmente desconhecido.
Voar e meu destino, ja tao anunciado, entre duas realidades que sempre me conflitam, e tocam. Nunca serei inteira, mas parte de dois todos em que, credulamente, sempre penso me encaixar, mas que zombam de minha vontade de estar.  Parece incrivel que um voo me transloque de la para ca, amorfa no espaco, sempre em procura..
Real saber que minha falta de sanidade, paradoxalmente, coloca coerencia em minhas palavras, meu derradeiro loco de construcao, encontro, e nao julgamento para comigo mesma.
Estou em mim porque as linhas eram meu desejo e, assim, inauguro minha carreira de cronista de aeroportos, muito mais do que a vida.
Se chorei tanto, porque nao agora ? Escrever so em estado hipomanico e um segredo que nao desvendarei em vida, e nao ha pranto que o apague.
Talvez soubera eu cultivar as lagrimas por mais tempo, me tornaria serena.   Nao abrir mao da escrita e o desejo mais almejado, que me faz pulsar a consciencia de que as palavras me dao.
Ja nao tenho medo de chorar, e tampouco me despedir, posto que o tempo e eterno.  Eu falivel, mas ele nunca morrera.
Fernando, siga comigo, pois que nunca me tenhas abandonado.   Deixe-me chegar um pouco a voce, em toda a sua loucura sem criticas.
Falam ao meu lado "cada escolha que a gente faz muda nossa vida "...Nao sei se a vida e feita de escolhas.  Ha tanto em minha vida que nao foi por mim determinado.  Ha procuras que ficaram sem respostas, e muita dor para a qual nao consegui consolo.
Nao pare de chorar, e que seja muito.  Por cima daquelas nuvens brancas, que nunca  poderei tocar. Amanha e um novo capitulo do meu destino, dessas pretensas escolhas que nao sei se as faco ou farei.
O mundo aceitara minha loucura quando ler o que escrevo.  Eu me lembrarei de Ana Cristina Cesar e Torquato Neto, e nao saberei o momento derradeiro.  Para alguns ele chega veloz, e nao tem manchas.  Outros se angustiam, e tambem acabam.  A fragilidade da vida e inconcebivel, e eu sou apenas uma folha, por isso posso voar.
Estou aqui, cadeira de aeroporto, me entregando ao delirio, horas de voo me esperam.  Ja nao tenho saudades, ja nao sinto amor.  Sinto, porque o sou , mas brinco, porque quero a liberdade.
Uma pagina arrancada, mais uma cronica escrita.  E eu me salvei da loucura.

sábado, 15 de outubro de 2016

Celas frias nao brotam flores ( Lula, viva )

Se justica fosse feita, as pessoas poderiam pensar.  A elas caberia o beneficio da duvida.
Nao existiriam grandes corporacoes, nem teriamos, eu e voce, brigado.
Caso as forcas fossem as mesmas, a natureza nao se revoltaria contra alguns, deixando outros incolumes.  Eu nao saberia de seu cancer, porque voce estaria pura.
Justica houvesse, e nao haveria becos soltos, e a agonia de quem ja acordou para um grito. Porque, no mundo dos homens, vale o arbitrio de quem ja e predestinado.
A juventude conheceria seu ardor, a diferenca sua singularidade, e o pobre nao seria apenas mais um.  Carentes de espirito sao os que se sentem privilegiados, acossados do alto de suas certezas.  Magnanimos, se ousam ao direito de cercear e prender sonhos.
Mas ao sonho nao existe dimensao.  Ele nao tem corpo, e por isso so esta.  Pode ser alimentado por acalentos de sangue, mas sobrevive e nao morre.  A presenca fisica de torturadores nao aniquila o pensamento, muito menos apaga as vozes do amanha.
Seu cancer nao valeu de nada, porque nao obscurece seu espirito.  A todas as criancas que nao vao conhecer seu futuro, um pedido para que se pare.  Escute-se o ruido da vida, que ja caminha, imberbe, por entre as fronteiras do nao conhecimento.
Mate-se um sonho, mas ele nao esmoecera.  Demorara anos, mas surgira como um calice, pronto e aberto a receber.
Aos que ouvirem vozes que nao se sabem existentes, o nao perdao.  Aos usurpadores, caladores do senso comum e traidores da raca humana, o destino e o silencio de um jazigo.  Onde todos se encontram, alguns em flores que nao sao minadas.
Que nao se pratique a injustica e o desamor.  Que se conservem viventes os pedidos para que sejamos livres.  Nao ha duvida maior do que a de quem pensa que nao a tenha.
Amanha e um outro dia, e nao sera de alegria.  Mas tampouco de tristeza, porque havera a luta de quem dormiu, e chorou.  Daquele que nao respeita os senhores que adestram o gado, na furia de controlar suas ambicoes desmedidas.
Havera um amanha , para cada injustica cometida e dor acumulada, porque a historia a tudo ve e a nada se cala.  Traca seus sinais, e nao os esconde as novas geracoes.
A cada golpe desferido, maior sera a dor dos que o cometam,  e tambem a alma dos que o vivam.
Lembrem-se das palavras, gestos, ternura e solidariedade.  Abram seus olhos, e gritem forte um coro de uniao.  Um pais abalado em suas conviccoes, mendigando um pouco de igualdade.
Nao o permitam que se va.  Respeitem o sonho de que um dia ja se foi.
Em nome de uma parte presente em cada um de nos ou, ao menos, dos que saibam cultiva-la.
Choremos pelos nossos erros, mas conservemos nossa dignidade.
A cela de uma prisao e lugubre, triste e abandonada.  A ela bastariam seus algozes.
Deixo-o viver.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Vinte e cinco mil kilometros de sonhos ( Minha volta ao Brasil )

Vem chegando, e escala pelas nuvens.  E meu aviao, que vai cruzar o espaco.
Adoro essa dimensao.  De repente, estou de encontro as nuvens, e tudo e ceu.  Sao as pessoas, e o sono, a fadiga de alguns, a energia de outros.
Eu, como sempre, nao tenho definicao.  Que farei nessas horas que me separam a meu destino ?
Pensarei, anteverei muito o momento de chegada.  Como e bom adentrar ao Brasil, colocar meus pes em solo, e comecar a ouvir minha lingua mae.
Mas ainda estou voando, literalmente. Me levanto, com o pretexto de tomar um copo d'agua.  Num de meus voos, tive uma conversa muito interessante com um transgenero, que me introduziu, teoricamente, a praticas sexuais que eu nao havia experimentado, antes, em minha imaginacao.
Mas foi em outro voo, que me deparei numa discussao com uma medica, que alegava que homossexualidade era anormal.  Dao-se diplomas a quem nao os fazem por merecer.
Voo ate Addis Abeba, capital da Etiopia.  E um voo curto, experimentacao ao que vira depois.
Ansiedade, estou no meu mundo transatlantico, que adoro.  Voo contra o tempo, contra as nuvens que esbarro pelo caminho, e contra a temperatura que vai adquirindo um sabor adocicado, no contexto dessa obra.
Hora de procurar o novo, as pessoas que me parecam interessantes, as poses divertidas dos que dormem abandonados,e, ate mesmo, as vezes, aquele bebe que chora, talvez porque lhe seja o destino.
Cruzo o continente africano, que tao caro nos e , e tao inospito.  Nada dele conheco, a nao ser aeroportos, o que e , a priori, uma heresia.  Fui sempre mais europeia na minha procura, mas hoje gostaria de conhecer meus irmaos de sangue.
Etiopes, por mim, sao bastante conhecidos.  Tem uma pele mestica e um sorriso afavel.  Adoram se comunicar, e sei disso pois basta ve-los trabalhando em grupo, sempre com uma palavra nos labios.
Mas, desse continente renegado, mas maravilhoso, gostaria de conhecer a cor negra forte, expressiva e grave.  Um dia me permitirei esse encontro.
Por ora, estamos sobre um oceano que faz apartheid entre dois lados do mundo.  E imenso, e voo absolutamente alto, acima das nuvens, so imaginando que pairo sobre ele.
Um vinho me basta para alguns minutos de enlevo, e a ansiedade me toma conta.  Aquele grande mapa digital, colocado a frente dos passageiros, vai mostrando a aproximacao gradativa com o que de mais precioso quero : pisar no Brasil.
E a minha terra, minhas origens, o comeco de minha historia, e a referencia de minha trajetoria.
Amo-o como nunca amei.  Pela sua incongruencia e tristeza, pela empatia que tenho com um povo que ainda nao acordou.  Pela vontade de, em vida, poder olhar um caminho diferente, que oriente essa nacao tao desumanamente desigual, como diria Caetano.
Estou alegre no meu egoismo de reencontro, mas triste por voce. Nao poderia deixar de dizer que chego contente, mas em lagrimas.  Sou portadora de transtorno bipolar, nao me e dificil.
Tentarei lhe receber sem julgar, porque voce, minha casa, sempre me acolhe.
Mas quero justica, que feita pelos homens.  Quero para voce o orgulho recuperado, e a derradeira consciencia do seu valor.
Vou pisar no seu solo, que meu tambem o e.  Por favor, me deixe acarinha-lo, e nao fuja de mim.  Nao fuja de voce.
Cheguei.  Em lhe rever, eu sabia que iria chorar.

sábado, 8 de outubro de 2016

Voar para alem das nuvens cor de rosa ( Ode II ao meu transtorno bipolar )

Sao os momentos da noite os mais fortuitos e agradaveis.  Agora sinto um compasso, e me dispo de minhas vaidades.
Quero correr a letra, e alcancar o ceu.  Me imiscuir em tons de azul palido, e esquecer do chorar.  Havera verde amanha e novos impulsos, e meu viver ficara coroado de vontade.
Seguindo meu pendulo, de repente abriu-se um momento.  Consigo sorrir, porque assim sou.  Cristalina, esquiva, espero que o verde adentre por minha janela, e que hajam raios de Sol.  Sempre espero pelos raios de Sol.  A noite e desafiadora, lugubre, um convite ao fascinio e a troca de palavras.
O dia chega, traz com ele seu resquicio de vontade e ser.  Me dispo a claridade, e a energia pulsante de tudo ao meu redor.  Nao penso, ajo, sorrio, profeco a escalada do meu ser ambulante. Professora, ensino o saber que nao esta em mim.  Ele se absteu de minha consciencia e me faz desperta a cada instante.  Sou o amago do que penetra em mim, a pergunta nao feita, e a resposta que ja se foi.
Com as maos golpeio a irreverencia do destino, que me curvou ao amparo da minha troca com o belo.  O amor que existe dentro de mim, a empatia que emana de minhas vicissitudes me faz ser inteira, entre as partes do que me julgo composta.
Nao pedi, mas so aceitei. O diluvio das palavras, ditas, escritas e sussuradas.  Meu abandono, minha pequena poesia, que so a mim pertence.  Gostaria de ser outra, mantendo-me fiel ao que sou.  Ao que fui, que ja nao sei, agora ha batidas dentro de mim.  O outrora, acalanto desperdicado, foi um atimo doloroso, e amanha sao as restias de Sol que ja desenho em minha memoria.
Vida, de que me es util ? Se conheco o sofrer e a alegria, a tristeza e o disparate ?  Como pode tudo voar ao longe, estando perto.  Ate quando essa sensacao de inexistencia, meu material que sucumbe.
Agarro-me as palavras, minha forca, meu reduto.  Sinto-me dentro delas, e nao posso perde-las.   Pretendo o encontro de mim mesma sem sons refletidos no papel.  Sem o desenho harmonioso de letras que sobem.  Minha consciencia transborda e se preenche de luz e vontade.  Simples porque a palavra, a derradeira silaba, veio a mim.  Inundou-me, careceu-me, e nao posso parar, pois tenho medo.  De que nada mais faca sentido, e de que eu me dilua em pensamentos e morte.
Sinto a morte perto.  Ela me ronda e espreita, faz parte de mim.  Esta pronta a me alcancar, mesmo que eu a refute.  Brinca comigo, mexe em meus cabelos, e me pede para ficar atenta.  Preciso desse cuidado, necessito do torpor do cair no vacuo, uma nuvem branca, sem peso nem textura.
Ela nao ha de ser um abraco doloroso, mas sim um pedido de uma boca, uma pagina de um livro que ainda nao se acabou.  A morte me adrenta, me cobre, e e um manto.  Rosa, leve, muito suave, que me leva, para longe, muito longe, para alem da ausencia de corpos.
Vejo pequenas estrelas cintilando no espaco onde meu corpo flutua, livre, sem carencia e sentidos.
Aprendi a morte, e quero-a perto, amiga, legal e viva.
A morte viva.  E eu , parte do que ja nao fui.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Em minha tempestade, velejarei na calmaria ( Ode ao meu transtorno bipolar )

Nao, que nao sou eu, mas e parte indissociavel do meu ser.  Que me toma em momentos que podem ser avizinhados, muito embora eu insista em renega-los.
Como se faz para carregar um fardo por toda a vida ? Para nao urrar, quando nao sei o que fazer, nos momentos em que a insanidade toma conta de mim.  Ela vem com uma furia que me cega, atormenta e cerra os olhos.  Nao sou eu, minha pele e meus sentidos. Sou um choro desregrado, um gemido sem controle, e a ausencia da vida.
Medo. Quisera eu que voce nao me tomasse, e que existisse na medida certa. Que me impelisse a frente, e nao me estarrecesse.  Medo de perder o controle, e me subjugar a uma vontade que nao e minha. Diferente de escrever, em que ha um arroubo de palavras, e so contemplacao.  A intolerancia me toma, a absoluta irracionalidade que me perpetra.
Nao quero causar mal ao que me rodeia. Para nao lutar, quando se queria ser livre. Para que o se-lo, se a prisao e o refugio ?  Para simples estar, sem contexto, sem aparencia, fluidez, mas nao certeza.
Encontro-me, as vezes, a beira de um abismo.  Como se houvera chegado no limite de mim mesma.  Depois de tanta dor, vem a percepcao do nada que lhe deu lugar.   A sensacao de vazio, o encontro com uma natureza que gostaria de que fosse muito mais placida.
Viverei ate o resto dos meus dias com esse peso. Que me foi atirado aos ombros, sem que, com ele, tivesse criado empatia.  Sem que, por ele, respeitasse alguma identidade.  Tao dificil admitir que ele e, indissociavelmente, um pedaco de mim.  Um atomo que me faz sofrer tanto, e a qual estou subjugada.
Morri, morreram-se varias dentro de mim.  Ha dias em que abriria mao da vida para nao sofrer e causar martirio a quem me cerca.  Momentos de desproposito e descrenca em meu caminho.
Conheco o mundo da depressao e da hipomania, extremos do afeto, que nao se faz constante.  Assumidamente falo e respiro essa realidade, que bate a minha porte em todos os momentos.  Vivo com a percepcao real de que, caso nao houvera medicacao, eu , mais do que hipoteticamente, teria me conduzido a uma trajetoria ainda mais dramatica.
Sobrevivi e o faco a cada dia, assinalando no compasso de meu relogio os dias que foram frutiferos, calmos, e que me propuseram a sensacao do aqui e agora, sem  mais perguntas.
Nos dias de trovoada, espero a brisa voltar, e ela vem logo, porque nao tenho um mecanismo que sustente a dor em toda a sua intensidade. Mudo como o vento, e amanha estarei melhor, apesar das lagrimas derramadas, Sou uma paciente de transtorno bipolar com ciclo rapido, onde oscilacoes velejam ao sabor do vento, que pruma a deriva de seu proprio querer.
Nao sou dona de mim, nem tampouco de minhas emocoes.  Estou a merce de calmarias e tempestades que, apesar de opostas, um dia poderao me submergir.
Meu ser se curva, cala, e nao tenho encontro.  Sou uma portadora de transtorno bipolar , e assim o serei, para o sempre de minha vida. Nunca conhecerei a verdadeira paz de estar so comigo, tampouco serei como os outros.  Me fecharei num mundo de incertezas absolutas e certezas criadas, para que eu possa sobreviver.  Serei so, serei eu, me bastarei no que aprendi a ser.  Porque tanto se me faz a percepcao de que algo possa ser diferente.
Sou, serei, e o que tenho.  Amanha abracarei,a calmaria.  Amanha me lembrarei de Fernando Pessoa, que liga meus passos.  Esquecerei da lagrima unica , que cai pelo meu rosto, agora, confessa.
Precisarei me lembrar de que nao ha momento para a escrita outro que a dor.  Ela extravaza as palavras, que tenho guardadas dentro de mim, e que fazem minha essencia.
Amanha vira o silencio e a tabula rasa dos sentimentos nao totalmente vividos.  Amanha serei outra, sempre a mesma.  Dentro de mim, pulsa so o simples desejo de ser livre.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Um rio passou dentro de mim ( Ode a Fernando e Milton )

Gostaria de lhe pedir a frase certa. A que contenha toda a ilusao que me dispa, e me coloque em frente a todas as vissicitudes.
E madrugada, e anseio.  Penso na generosidade, na partilha, e nos sonhos nao perpetuados..  Vivo o mundo dos homens, que submerge, a cada momento, a presenca da morte. Somos faliveis, cristaos, ortodoxos, ou judeus.  Temos uma devocao mistica que nos ajuda e ampara no elaborar do que seja a nossa consciencia.  Mas conhecemos a fragilidade do que ai esta.
Vamos falar de sonhos.  Ontem, pela primeira vez, me sentei ao terraco e vi a Lua, cumplice.  E foi ela, marcando o meu tempo e espaco, se deslocando.  E, em referencia a ela, meu momento se fez sentido.
Fernando Pessoa diria :" Mas que sei eu das casas, do rio que corre pela minha aldeia.  Ele apenas esta la, e e o rio que corre pela minha aldeia ".  Foi o que senti tambem: a Lua sobe, e eu fui parte de um pequeno momento do fulgor dela em frente a meus olhos.
Quanto nao saberei porque meus sentidos estao torpes ?  Porque meus momentos nao sao de contemplacao ?  Porque exijo respostas a perguntas que so deveriam existir para si mesmas.
Penso que sou um ser social, e devo gratidao e generosidade a meus semelhantes.  Se eles houveram sido a Lua, estaria eu a contempla-los ?  Sao eles realmente a fonte de identificacao com o meio em que vivo, com a minha duvida existencial do que seja o rio que corre dentro de mim?
Fernando Pessoa segue, mais arrojado e, nessa ode de mais de trinta estrofes, acaba por dizer que passa e fica como o Universo.  Eu tambem passarei por ele.  Serei tudo e nada, a sombra de meus semelhantes.  Acreditarei na dor universal e nas tentativas de minimiza-la. Pensarei antes que sou um ser unico e que, aquele homem, a frente da tabacaria, que pensava eu estar chorando por ser empatico com seu sofrimento, nada mais era do que o apenas eu , sem encontro ao que me rodeia.
E outro heteronimo de Pessoa completaria o teorema, com o " fingir que e dor a dor que deveras sentes ".
Sou tambem esse espectro multifacetado, que sabe o sofrer, mas o renega. Que o sabe, e tambem nao lhe mente.
Se sou o rio, tambem posso correr por ele , nesse rio que so esta, e nao faz mais do que ser esse seu significado.  Como la esteve a Lua, apesar dos meus sentidos, que insistem em lhe buscar um nome.
Se sou parte da Natureza, sou a Lua.  Do qual me olvido conscientemente, mas que bate dentro de mim. Passo e fico, como o Universo.  E essa grandiosidade do ser e inerente a especie.
Podemos ser absolutamente tudo. Somos, em comunhao.  Ou optamos por renega-la.
Dai se fazem as guerras ?  Por uma quantidade inabalavel de seres que nao sao parte de, mas acreditam serem unicos em sua tirania ?
O que e ela ? E o medo da morte personificado na onipotencia desmedida ?  Pois se a Lua se faz aos olhos de todos, como o rio, eu me faco a meus olhos. E, se o que me cerca me convida ao Universo, porque rechaca-lo com balas de canhao ?
A guerra sempre existiu dentro da evolucao da especie humana.  Vem travestida de nomes e sentidos, sendo , invariavelmente, destrutiva.  Nos conceitos pre-socraticos, a questao da liberdade ja ocupava seu espaco dialetico.
E o homem habita esse planeta ha milhoes de anos, cultivando, invariavelmente, o sabor pela arte e pelo guerrear.  Como num novelo, a historia da humanidade se encobre em perdas e musica ao longe. O simples mirar da Lua.  A vida que corre, e um leito de rio.
Um rio que passava pela minha aldeia, belo simplesmente por existir.  Porque precisamos de mais ?

sábado, 18 de junho de 2016

Ficar indo embora ( Ode ao querer )

Decisao.  Palavra forte e poderosa.  Mais um som que so pertence a lingua portuguesa, o til. Anasalado, sempre ouco san paulo em vez do que e nosso. Sinto uma certa satisfacao pelo nosso direito a propriedade, ainda que esse pequeno agregado de silabas represente algo que possa ser gigantesco. Vencer conflitos.
Em tempos de vivencia ou nao da democracia, imprescindivel se torna ter um leque de opcoes. Ou nem tanto, pelo menos o desenho de mais de uma probabilidade nos nossos processos  de auto questionamento.
Quem nao tem duvidas, nao as soluciona.  E obvio, pois se precisarao existir para serem questionadas.  Quem as tem, pode enxergar a vida como um trecho de estrada que se bifurca, onde caminhos se dividem, sendo tenuamente iguais. Nao ha como sabe-lo enquanto so seguir a trilha, sem muitas chances de voltar, meu chamado ao poema The Road Not Taken.
Com certeza doi, porque a especulacao e mais facil e nao comprometida.  Porque o processo de dar e receber pode ficar intocavel, o que e um erro de julgamento.  A quem ficar possa, talvez a fantasia dos grilhoes da liberdade.  A quem partir, o sonho pequeno e forte da saudade, e o aprendizado de renuncia e desapego.
O medo, o que dele fazer ?  Libertando-me, sobra-me o espaco do me dedicar a minha solidao.  Meus comprometimentos se tornam mais individuais, apesar de muitos anseios.
Deixei o que quero bem.  O expus a sua propria sorte e temperamento.  Haverei de ve-lo crescer com seus erros e desacertos, atribuidos tao e somente a sua pessoa.  O mundo dos homens e o da seguranca de quem lida com os proprios sentimentos, investe, e tira do bem o maximo.                     So que nao o desse menino, dependente em maturar, projetado na figura do qual tenta se desamarrar, quase sempre em vao.
Meninos que nao crescem podem se tornar eternos . Brincam de camuflar a realidade.  Escorregam na propria fragilidade, enquanto o que os cerca nao para e, nem ao menos da sinais.  O mundo, a vida, expoem, gritam e pedem para nos fortalecermos.  Mesmo que seja duro, doloroso, e abramos maos dos nossos sonhos.
Diz-se que ha uma crianca dentro de nos, que conserva a pureza frente as adversidades.  Que sabe chorar o pranto escondido, preso a garganta.
Que farei ao menino ? Continuarei a brincar de realidade com ele ou me calarei ?  Exigirei o troco do afeto empenhado, e das promessas nao cumpridas ou, simplesmente, calarei o meu desejo egoista de quem esteve perto porque lhe era bom ?
Algo me diz que vamos nos separar, menino.  De que serei eu a soltar as amarras. Eu a decidir o que ja era obvio antes de ser questionado.  Voce partir e eu ficar.
Aquela imagem de que eu estarei ao ninho, pronta, concisa, quem sabe.  Sou mesmo um emaranhado, voce sabe. Mas vou me esforcar para ser justa.  Dificil, porque fingi que acreditei so em minhas asas protetoras, e agora descubro que as abri  para muito longe, e tambem voei.
Voltei, sem saber o que eu era, muitas vezes.   Ate que, um dia, meu coracao se aquietou, e descobri que o que fazia era so para mim.
E foi por isso que lhe dei o nome Lee que, plagiando a descoberta acima, quer dizer para mim, em hebraico.  O nome mais sonoro, curto e ambicioso da lingua.
E voce chegou.  Para partir, e ficar.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Uma ode ao nao boicote

Um dia, a arte acordou com uma crise de enfado existencial.  Cansou de ser libertaria, ludica e universal.  Afinal de contas, Van Gogh nao foi poupado por exterminar uma orelha.  Muito pelo contrario, o planeta se refastelou em associar seu ato decrepito com a genialidade de tracos nunca antes percorridos.  Hemingway saudou a solidao de um velho homem de bracos abertos ao mar, e sua visao de liberdade culminou em seu proprio suicidio.
Tenho em mim que a arte tenha se cansado de si mesma.  De suas formas a procura, de suas palavras passeando aos olhos, de sua mistica, dos ouvidos que escutavam sua musica.   Esvaziou-se no seu sentido de existir, de encontrar o sempre mesmo pretexto de ser ela, e por ela ser so.
Houve um dia em que parou.  Desceu de seu sentido mistico de representar o que nao tem nome, e resolveu ouvir o apelo da voz humana.  Transvestindo-se, assim se prostituiu.  Saudando o que deveria calar, virou artigo de consumo.
Os homens produzem a arte, como assim a destroem.  Aceleram a tecnologia que, por sua vez, arte tambem o e na qualidade de improvisar o desconhecido.  Bordaram e bradaram tanto que ambos, tecnologia e arte, esgotaram de vez seus proprios recursos em serem livres.
Canto?  Nao canto, saboto.  Impeco a outros de me ouvirem, porque o negar e um ato politico.   Saboteio a importacao de tecnologia, vide o mesmo pretexto.
Ai ficamos nos, os seres humanos.  Aqueles que, carentes, necessitamos da musica que, a nossos ouvidos, gritaria como um som que desafia a guerras.  Aqueles que, desesperados, precisariam de um marcapasso que lhes ajudasse o coracao a bater.
E visionarios somos os que, absolutamente, nao entendem os meados de tanta mesquinhez.  Os que nao sucumbem a corrupcao de formulas baratas e imediatistas, que pensam produzir os mais beneficos resultados.
Somos nos que queremos que nossos filhos, soldados, dancem ao som das melodias por eles escolhidas.  Porque esquecerao o barulho das guerras e o grito dos canhoes.  Sao voces os que querem um sorriso que nao se apague ao ultimo suspiro.
Sou eu que sonhei com um mundo melhor em que, onipotentemente, acreditei serem as alegrias transparentes aos olhos de meu filho.  Que ele conhecesse o que cansei de usufruir na terra onde nasci.
Sou eu que nao entendo a dicotomia.  De um lado o homem, soberbo a si mesmo, produto feito a compor tao divinamente.  Do outro lado, ele,  brincando com as migalhas do egoismo que encontra pelo caminho.
Boicotar o que, que ja da vida nos tira tanto, sem que entendamos o porque.  Que nos apresenta um mundo de misterios, sempre revestido pela relutancia em conserva-lo.
Boicotar significa morte.  Aos que lhes e negado o direito de repartir.  E o primeiro principio das guerras, e o mais covarde,
Querendo encerrar com, ao menos, uma palavra que console, meu pensamento toma forma em acalanto.  Que a arte e a tecnologia parem de gritar.

Meu tempo e partida.

Bom, para o comeco e isso.  Eu tenho um blog sem acentos no portugues.  Isso nao significa que eu nao pense, fale e xingue em portugues, principalmente o ultimo.  E um dos maiores prazeres da minha vida rebater com improperios a quem me faz uma desfeita, e fica com o rosto totalmente decepcionado e surpreso, por nao saber que estranha e aquela lingua que revida, pontualmente, num sorriso maroto e ainda acrescenta : " Esta vendo, por essa voce nao esperava " !
Decidi mudar para um pais estranho ha muito tempo quando, talvez, me achasse mais corajosa e aventureira do que realmente sou.  Aventureira porque nao sai com aquela proposta emoldurada de fazer um aperfeicoamento no exterior, ou nem mesmo colher morangos em algum lugar na Europa, conhecer uns escandinavos e voltar.
Nao.  Eu queria fazer as malas, e sabe-se la o que seria.
Uma grande parcela da minha coragem ( e tambem covardia , como todo processo dialetico ) foi pensar em Israel.  A covardia porque me ofereciam oportunidade de estudar a lingua, lugar para comer, dormir, universidade gratuita.  Tudo isso numa epoca em que eu so queria subir num aviao e partir.   A coragem era enfrentar minha covardia de experimentar em Israel, um pais que, basicamente, representa o fluxo de nem mesmo duvidas, porque religiao nao e meu encontro com o mundo.  Mas pode-se viver em Israel a margem de conflitos com o judaismo.  Eles ficam so na memoria afetiva de quem teve amigos, carrega um sobrenome, e sabe que a vida e mais do que isso. Sao em paises conflitados e sofridos que temos a chance de encontrar mais valores humanistas, dentro de nos mesmos.
Na verdade, existe pessoas que sabem bem antes, como tambem aquelas que descobrem muito tempo depois.  Vender seus livros em portugues e uma parte do desapego que doi, e e significativa.  Dela me lembro bem.  Viajar com uma mala e 500 dolares, os dois que dao para muito pouco, um ato de bravura, amparados pela pretensa inocencia dos meus pais, que nao deveriam estar satisfeitos com a minha partida.
Nao me lembro muito bem de como me despedi, fora os amigos que estavam no aeroporto.
Do que me lembro, e bem, e de que deveria ter uma certeza incrustrada de que, quando se parte, leva-se o que quer e se esquece o que nao quer.   Nao me julgue voce, porque essa tendencia a praticidade pode ser universal.  Nao nos separamos de conjuges, namorados, rompemos carreira, acreditando no principio de que a distancia apaga as feridas ?
Pois ai esta o paradoxo.  Distanciamos os objetos, mas continuamos os mesmos.  Na realidade, a cada ruptura, enaltacemos nossa audacia de romper grilhoes,sem que isso signifique, implicitamente, que nos propusemos a mudar.   Quem foi que disse que basta so querer mudar?   Ou que, ao menos, saibamos que teremos que mudar?  Os livros de auto ajuda, as imposicoes da vida, os quimicos no nosso cerebro, que agem independentemente da nossa vontade ?
Tudo isso e para dizer que inicio um blog sabendo que o momento de partida nao e o de chegada. Que, nas milhares de vezes em que fui perguntada porque vim para Israel, eu, que nunca fui nem serei sionista, respondi que o que me fez partir nao foi, necessariamente, o que me fez ficar.
Na verdade, eu so sei que queria partir.  Perguntar a aeromoca como se dizia " eu quero comer " e " eu quero beber " , logo que cheguei em solo israelense, representavam a audacia de quem se despiu ao novo.
Apenas um erro de calculo:  quando se parte, o que e de dentro vai junto, e desafia a distancia.  Vao-se juntos os erros, acertos, sombras, duvidas.  Parte-se com o que se e, em estado de procura.  E disfarcarmos, pois lidar com novas realidades, cultura, lingua, preenchem nosso tempo e ate reforcam nosso ego.  Mas o que se e, o amago, esta la, e nao e uma caixa skinneriana, que so responde a estimulos externos.  Amarras com os pais ?  Nao e uma distancia geografica ou material que as transponha.
O tempo, ou temporalidade, como vi numa palestra de filosofia, e o conceito mais dificil a ser explicado. Todos os filosofos, ja em si possuidores de uma vocacao para o abstrato, esbarraram nesse desafio.   Aristoteles, provavelmente, grande sabio que o era, optou por nao da-lo definicao,.
A partida e um tempo.  A vida um tempo, finito ao extremo, composto de muitos outros que, provavelmente, nao se encaixaram, ou o farao.
As pessoas que tem a certeza de sua partida, saibam que nao a terao na sua chegada. Elas viajarao consigo mesmas, apesar da distancia, e por causa dela.
A muito poucos eu diria " eu so quis partir " .   Mas essa e uma grande verdade de mim mesma.   Minha partida foi e continua sendo meu tempo.